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Reportagem da TVI cria falsas expectativas em familiares de doentes com Alzheimer

Notícias - Online
Opinião de dois neurologistas sobre reportagem
Autor Patrícia Fernandes 
Data 02-05-2017 
Opinião de dois neurologistas, a propósito dos potenciais “malefícios” de uma reportagem televisiva sobre os “enormes” benefícios de uma cirurgia cerebral


No dia 2 de Abril a TVI passou uma reportagem sobre a cirurgia de estimulação cerebral profunda no tratamento da Doença de Parkinson. Esta reportagem acompanhou a atividade de um dos serviços pioneiros na realização desta cirurgia em Portugal, contando com a participação de médicos com grande experiência e competência nesta técnica cirúrgica. Contudo, a forma como os potenciais benefícios desta cirurgia foram apresentados e a ideia transmitida da possibilidade de obtenção de igual benefício em outras doenças como a Doença de Alzheimer, depressão, anorexia, obesidade e toxicodependência merece um comentário sobre as consequências da passagem deste tipo de mensagens “positivas” em saúde.


Reconhecemos o poder dos meios de comunicação social e em particular da televisão. Sempre que colaboramos num programa televisivo recebemos vários contactos, fruto do interesse e expectativas geradas pela nossa participação. Contudo, após esta reportagem, o número de contactos que recebemos, bem como outros colegas, foi incomparavelmente maior. Alguns dos telefonemas tinham por objectivo questionar-nos se um familiar com Doença de Parkinson poderia ser operado. Mas os contactos que nos levaram a escrever este texto foram efectuados por familiares de doentes com Doença de Alzheimer que nos abordaram com a expectativa de que esta cirurgia pudesse tratar o seu pai ou mãe. Infelizmente, muitas destas abordagens partiram de familiares de doentes em fases de demência avançada e já institucionalizados!


Esta situação e as expectativas infundadas sobre uma opção cirúrgica para tratar uma doença grave, incapacitante e que afecta quase todas as famílias em Portugal, deixaram-nos no papel desconfortável de anular a “falsa esperança” gerada por esta reportagem.


Pensamos assim que é nossa obrigação clarificar alguns dos aspectos da reportagem e alertar para o risco da comunicação social poder gerar “doença”.


Esta técnica cirúrgica foi desenvolvida pelo Prof. Alim Louis Benabid há 30 anos e o seu enorme contributo para o tratamento da Doença de Parkinson tornam-no num candidato a receber o Nobel da Medicina. Começou a ser a aplicada em Portugal há mais de 10 anos e já foram operados cerca de 900 doentes. As doenças que estão aprovadas para serem tratadas com esta cirurgia são a Doença de Parkinson, o Tremor Essencial, as Distonias e a Perturbação Obsessivo-Compulsiva grave. Todas as outras doenças, em que se incluem a Doença de Alzheimer, depressão, anorexia, obesidade e toxicodependência, só podem ser tratadas com esta cirurgia num contexto de estudos científicos e após aprovação por Comissões de Ética competentes. Em alguns casos, a comunidade científica considera que o benefício é provável mas que ainda precisamos de estudos adicionais que demonstrem, de forma clara, os verdadeiros benefícios e quais os doentes que são melhores candidatos para serem operados. Em outros casos, como os da Doença de Alzheimer, as expectativas são ainda muito baixas e não existem quaisquer dados rigorosos que possam sugerir que esta técnica venha a constituir um tratamento benéfico. Em contraponto, esta cirurgia não é isenta de riscos e mesmo nos centros com mais experiência existe uma probabilidade de 1 a 2% de ocorrência de efeitos adversos graves.


Independentemente do caso específico desta cirurgia, que para alguns doentes apresenta um efeito “quase miraculoso”, pensamos ser importante alertar os jornalistas e também os profissionais de saúde para o potencial impacto negativo destas notícias. Em medicina, é quase sempre possível apresentar casos em que os benefícios de um tratamento são muito altos e impressionam o cidadão comum. Estes benefícios podem até ser obtidos com medicamentos “falsos” (que não têm um efeito específico na doença) e a este efeito chama-se placebo.


É assim importante deixar muito claro que não existe qualquer suporte científico de que a cirurgia apresentada na reportagem (estimulação cerebral profunda) ou qualquer outra cirurgia cerebral apresente benefícios no tratamento da doença de Alzheimer. Infelizmente, apesar de existirem alguns medicamentos que podem melhorar alguns sintomas da Doença de Alzheimer (em alguns doentes), não existe qualquer tratamento que pare ou atrase a progressão da doença. Por outro lado, o gerar expectativas infundadas em relação ao benefício de um tratamento é causa de desconforto e não deve fazer parte de uma prática jornalística e médica de qualidade.


Reconhecendo os elevados méritos da comunicação social na educação para a saúde e o seu potencial papel “terapêutico”, alertamos também para o potencial risco de causar efeitos desagradáveis e consequentemente “malefício”.

 


Fonte: Visão