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Teste ao sangue deteta proteína tóxica da doença de Alzheimer

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Estudo na revista Nature mostra que biomarcadores no plasma sanguíneo podem prever a deposição de beta-amilóide no cérebro – a primeira assinatura patológica da doença de Alzheimer.
Autor Tatiana Nunes 
Data 05-02-2018 
Investigadores do Japão e da Austrália anunciaram que fizeram progressos importantes no desenvolvimento de uma análise ao sangue que poderá, no futuro, ajudar os médicos a detetar quem vai sofrer da doença de Alzheimer.

No estudo publicado esta quinta-feira na revista Nature, os cientistas referem que o teste, que consegue detetar uma proteína tóxica conhecida como beta-amilóide, ligada à doença de Alzheimer, registou mais de 90% de precisão na investigação que envolveu cerca de 370 pessoas. Apesar dos bons resultados, os cientistas avisam que é preciso fazer mais investigação até chegar a um teste de diagnóstico capaz de detetar precocemente a doença de Alzheimer com um teste de sangue.


Mais de 50 milhões de pessoas em todo o mundo são afetadas por demência, sendo a doença de Alzheimer a sua forma mais comum. De acordo com a organização Alzheimer’s Disease International, em 2050 o número de pessoas com demências quase triplicará, chegando aos 131,5 milhões, e a maioria terá Alzheimer.

Atualmente, os médicos usam técnicas de imagiologia cerebral, desde a tomografia axial computadorizada (TAC) à tomografia por emissão de positrões (PET), ou outros testes invasivos como punções para analisar o líquido cefalorraquidiano, para perceber se os doentes têm uma acumulação de beta-amilóide no cérebro. No entanto, além de invasivos, esses testes são caros e podem só mostrar resultados quando a doença já começou a progredir.

Apesar de décadas de investigação científica, ainda não há tratamento que possa retardar a progressão da doença de Alzheimer. Os fármacos atuais não conseguem fazer mais do que aliviar alguns dos sintomas. Ter um exame de sangue simples e de baixo custo poderia tornar mais fácil para as empresas farmacêuticas encontrar as pessoas em risco de desenvolver Alzheimer para testar potenciais novos medicamentos de combate à doença, afirma Katsuhiko Yanagisawa, investigador no Centro Nacional Japonês de Geriatria e Gerontologia, que co-liderou o estudo publicado na Nature.

Sabendo-se que a doença de Alzheimer pode instalar-se e começar a desenvolver-se anos antes de surgirem os primeiros sintomas de perda de memória, os especialistas acreditam que a capacidade de detetar precocemente e com precisão qualquer sinal desta doença pode ser importante para encontrar um tratamento eficaz.


“Temos de andar antes de correr. Precisamos de conseguir diagnosticar a doença antes ainda de ser possível observar um efeito de uma intervenção terapêutica. E é daqui que virá o real valor deste teste”, afirma Colin Masters, professor na Universidade de Melbourne (Austrália) que co-liderou a investigação. O estudo envolveu 252 doentes australianos e 121 japoneses com idades compreendidas entre 60 e 90 anos.

A procura de biomarcadores no sangue para detectar precocemente a doença de Alzheimer dura há vários anos, com sucessivas notícias de progressos, mas ainda nenhum teste se tornou uma realidade na prática clínica. Alguns especialistas nesta área, que não participaram no estudo publicado agora na Nature, reconhecem que os resultados relatados no artigo científico representam um passo importante, mas avisam que é preciso fazer mais estudos.

“Se puder ser replicado num maior número de pessoas, este teste dará uma visão sobre as mudanças que ocorrem no cérebro e que se relacionam com a doença de Alzheimer”, disse Mark Dallas, especialista em Neurociências Celulares e Mna Universidade de Reading, na Grã-Bretanha.


Já Abdul Hye, do Instituto de Psiquiatria, Psicologia e Neurociências do King’s College de Londres, sublinhou que o teste ainda está longe de poder ser usado na prática clínica. “A abordagem para a obtenção dos resultados ainda é muito complicada na sua forma atual, por isso a metodologia não é prática para usar num cenário clínico”, afirmou.

John Hardy, professor de Neurociências no University College de Londres, considerou, por sua vez, que este estudo “poderá vir a ter um impacto muito positivo na precisão do diagnóstico”.