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Testemunho da participação numa das sessões do Grupo de Suporte de Lisboa.
Eu e a minha irmã visitámos uns 20 lares na zona da Grande Lisboa. Lares caros, lares menos caros. Sabíamos que estávamos condicionadas pelo valor da pensão da minha mãe e que não podíamos exceder esse valor.
Naquele Verão, mal cheguei a casa percebi que o azul dos olhos havia perdido a vivacidade tenaz com que sempre mirava o Mundo e que o sorriso já não tinha vestígios da malícia que tanto me divertia.
A Maria João é médica, casada e Mãe de um casal em que o mais velho tem 25 anos. Até lhe ser diagnosticado Alzheimer, privilegiava o seu desempenho profissional de modo a proporcionar a melhor resposta aos desafios colocados pelos doentes e o cuidar da família.
Tem 82 anos, a minha Mãe. Quando comecei a achar que era crescida, a minha grande dúvida era como se fazia para chegar a um nível intelectual como o dela: não iria ter tempo na vida toda para ter lido os livros todos, ter estudado as artes todas, ter pensado as filosofias todas. Como é que ela teria feito, como era que fazia??
Só quem convive directamente com esta doença e assiste à transformação daqueles que nos são queridos é que consegue ter a percepção do quão devastadora e destruidora ela é. Sou enfermeira há mais de 32 anos. Iniciei muito cedo e terei cometido os meus erros como todo e qualquer profissional no início de carreira.
Os dias, as semanas, os meses e os anos passavam com grandes atribulações. Confusão, alucinação, delírio, desconfiança e esquecimentos rodeavam meu pai, um ?pobre? ser humano indefeso, incompreendido por vezes, por muitos, mas que com muita paciência, amor e compaixão, minha mãe, cuidadora, fazia o melhor que podia.
Pensei muito antes de decidir defender o livro "O meu pai tem Alzheimer", de Marie-France Billet. Talvez por estar demasiado envolvida na minha profissão com esta doença, o livro me tenha marcado de uma maneira diferente.
Ontem a minha Mãe (83 anos, Alzheimer fase 6 na escala de 1 a 7) caiu e bateu com a parte de trás da cabeça ? fazendo um grande "galo", hematoma. A seguir parecia sentir-se bem e não ter sequelas, mas pelo sim, pelo não fui, com ela às urgências do hospital.
Venho trazer-vos um testemunho que gostava muito que ajudasse todos os que, de uma forma ou de outra, estão a lidar com a doença de Alzheimer. A doença de Alzheimer era a última coisa que eu e os meus irmãos achávamos que pudesse alguma vez afectar uma pessoa com o perfil da nossa Mãe.