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Os meus Tios, Ernesto e Maria Helena

Sou professora e voluntária na Delegação da Madeira da APFADA, com ligação familiar a Doentes de Alzheimer.

Decidi partilhar com os meus "companheiros de caminhada" sócios da APFADA e todos os que, de alguma forma, estão tocados pela mesma experiência, esta memória sobre os meus Tios, ele Doente, ela Cuidadora. O Tio deixou-nos em Novembro, inexoravelmente apagado por esta doença implacável que ainda não é dominada satisfatoriamente pelas Neurociências.

Durante os anos em que a doença foi consumindo as capacidades mentais e depois físicas do Tio Ernesto, este foi cuidado em casa, com o maior carinho e atenção. Pela Tia M. Helena, 24 sobre 24 horas, secundada por auxiliares.

Uma vez mais constatei que a própria casa é o melhor lugar para ter estes doentes, durante a primeira e segunda fases. Na terceira fase, a mais difícil, foi-me dado confirmar que é quase impossível: o Tio era muito alto e ganhou mais peso com a redução gradual da sua mobilidade. Tinha momentos de grande confusão e agitação. Vi a tia ficar, ela própria, sem forças, sem meios para fazer face às situações, sem saúde... assustada com a possibilidade real de, já com os seus 81 anos, vir a ser incapaz de cuidar do marido, de 88. Vi como fazer face a esta doença é uma luta constante, dura, implacável em que o cuidador principal pode acabar por adoecer, esgotado, física e emocionalmente. Vi como ela ficou triste por ter de institucionalizar o seu doente querido, pela sua própria falta de condições e pela firme insistência dos sobrinhos, desejando poupá-la. Foi um período curto mas dramático.

O Senhor Professor Dr. Carlos Garcia acompanhou a doença do meu Tio. Com enorme mágoa soubemos do seu desaparecimento, logo a seguir. Sei, pelo testemunho da tia, que era um Médico excepcionalmente sensível, competente e dedicado a estes doentes. Orientava a terapia sempre baseado no que a tia lhe dizia "eu sou o médico, mas a senhora é que acompanha o doente a tempo inteiro, sabe mais do que eu!". Só uma pessoa superior pode ter esta humildade e esta humanidade. Que falta vai fazer! Que exemplo para outros!

Dedico este testemunho aos meus Tios, Ernesto e M. Helena, e ao Senhor Professor Dr. Carlos Garcia.


M. Emília Homem da Costa
2004