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Testemunho de Lúcia Santos


Desde já agradeço imenso que leiam este meu "desabafo", o qual é feito com muita e indescritível dor e sofrimento, não só pelo que sofri e ainda sofro, mas sobretudo pelo sofrimento por que passou a Brígida Maria Mira, falecida no passado dia 14 de Fevereiro, minha mãe.

Sou há poucos meses sócia dos amigos e familiares dos doentes de Alzheimer e pretendo continuar a ser. Pelo que tenho lido nos livros sobre esta doença, bem como as informações que pessoas habilitadas me têm fornecido, creio que a minha mãe sofria desta doença há alguns anos, o que eu desconhecia e atribuía os sintomas que ela apresentava à sua idade avançada.

Todavia, em Junho de 2002 a médica de família mandou fazer um TAC e só aí se descobriu que efectivamente a minha mãe sofria dessa terrível doença.

Começou então um tratamento, receitado pelo médico psiquiatra, que entretanto a assistia, mas com o decorrer do tempo foi piorando.
Eu, como não tinha ninguém que me ajudasse, nem por uma hora que fosse, comecei também a adoecer e foi então que passados 2 anos, de estar a cuidar sozinha da minha mãe, me vi na necessidade de procurar um lar. Mas, cedo percebi, que não ia ser fácil, porque dos muitos e muitos lares que visitei, não gostava de nenhum, ora por uma razão ora por outra. Essencialmente não me parecia que a minha mãe fosse ter o tratamento que eu desejaria e que ela precisava.
A princípio, fisicamente ela aparentava estar bem, mas não parava quieta e começou então a agredir-se a ela própria e quando contrariada por outras pessoas agredia-as também.

Tudo começou então a complicar-se e a tomar-se cada vez mais difícil para mim.

Comecei novamente a procurar um lar que me ajudasse, e em Outubro de 2004, pensei ter encontrado o que tanto procurava, acreditei nas pessoas que me receberam e com quem falei longamente sobre a doença da minha mãe e percebi que ela ficaria bem.

Visitava-a diariamente e isso para mim era uma grande ajuda.

No dia 25 de Outubro fui deixá-la no referido lar mas no dia 30 de Novembro fui novamente buscá-la, porque entendi levá-la ao seu psiquiatra, a quem agradeço encarecidamente tudo o que fez por ela e por mim. Foram então feitas análises e declarada uma anemia muito grave.

Infelizmente, principalmente para a minha mãe, a minha netinha de 4 anos foi nessa mesma altura internada no hospital, gravemente doente. No dia 15 de Dezembro fui para o hospital acompanhar a minha neta e não sai da sua cabeceira, dia e noite, durante 10 dias em que esteve em estado crítico.

Perante esta desesperada situação, vi-me obrigada a levar a minha mãe novamente para o dito lar, pois era o que conhecia e onde a receberam de imediato: o resultado desta pequena estadia, foi dramática. Era tarde demais, a minha mãe entretanto ficara acamada, e durante um mês insisti com os responsáveis pelo lar para lhe fazerem análises, pois via que ela não estava nada bem, mas em vão.

Resolvi então ir ter com a médica Psiquiatra, que me mandou ir directamente ao laboratório fazer a marcação das análises e passados 2 dias veio o pior dos resultados, tendo seguido logo para o Hospital Amadora-Sintra mas já não havia nada a fazer.

A minha mãe tinha o intestino completamente cheio de fezes, facto só explicável pelo mau funcionamento dos mesmos, ou mesmo não funcionamento, durante o mês que esteve no lar. O seu estado de desidratação era impressionante e estava num sono tão profundo que foi impossível acordá-la. Estas palavras foram ditas pelo próprio médico que a seguiu no hospital.

Ao fim de 10 dias de longo, e penso que não será exagero dizer, "desnecessário" sofrimento, a minha mãe partiu. Eu sabia que ela ia partir, tinha que partir, mas não era nas condições desumanas em que o foi.

Se os lares não têm ao serviço, pessoal competente para cuidar de pessoas com este tipo de doenças, por favor não os aceitem. Esta situação transformou-se num duplo sofrimento, não só para a minha mãe mas também para mim, que penso nela dia e noite e em tudo o que sofreu.

Sei que este meu depoimento não diminui em nada o sofrimento que a minha mãe teve, mas atenua de alguma forma o meu, porque tenho esperança que deste modo possa contribuir para evitar que algumas mães venham a passar pelo mesmo.

Só peço a Deus que mais nenhuma mãe em Portugal sofra como a minha sofreu.

Obrigado


Lúcia Santos
2005