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Nunca se perde realmente até se desistir de tentar

 
Gostaria de partilhar com todos os cuidadores um pouco da minha experiência ao longo dos anos em que acompanhei de perto a minha mãe, até ao seu falecimento no passado mês de Agosto.

Numa 1ª fase, cerca de dois anos, procurei por todos os meios manter a minha mãe junto a mim, na "sua casinha" (como ela gostava de dizer). Porque filha única, empregada e sem familiares directos em Lisboa (meu pai faleceu há 11anos), recorri à ajuda de empregadas que pouco ou nenhum tempo conseguia manter ao serviço, face ao quadro clínico da minha mãe.

Numa 2ªfase tentei encontrar um Lar na zona de Lisboa, (e visitei tantos!). A escolha foi tremenda, a minha mãe não aguentou 8 dias, partiu o colo do fémur, porque lhe ministraram sedativos para a "acalmar" .

Nova etapa de sofrimento foi passada numa Unidade Hospitalar Privada onde internada durante 22 dias (Maio 2004) para ser operada e recuperada da fractura, foi sempre tratada como um "corpo estranho",como se uma doente de Alzheimer não tivesse o direito de ser tratada a uma fractura. Como cuidadora senti-me a pior filha do mundo durante este mês. No entanto não desistimos nem eu nem ela!

Em 24 de Maio de 2004 visitei pela primeira vez um novo Lar que estava a ser criado, a Casa de Repouso de Stª Jacinta no Cercal, concelho de Soure, bem perto das origens dos meus pais no distrito de Coimbra. Nessa 1ªvisita senti logo que aquela seria a "nova casinha" para a minha mãe. Não me importaram nunca ao longo de dois anos os 400Km que percorria de Lisboa ao Cercal todos os fins-de-semana, pois senti que cada semana estávamos a festejar uma vitória.

A minha mãe começou a caminhar, reaprendeu a comer pela sua mão, voltou a falar, criou amigas, voltou a sorrir...

Cada semana uma conquista, as visitas à sua casa de Coimbra, o apoio da família, os piqueniques conjuntos, os passeios de carro, os telefonemas diários, as conversas com a amiga Rosa, as idas ao cabeleireiro, as festas com os meninos da escola do Cercal, os trabalhos manuais que executava...

Nada lhe faltou, fisioterapia 7 dias por semana (obrigado Cristina e Ana), Ocupação dos tempos livres (obrigado Márcia),e sobretudo carinho muito carinho (obrigado enfermeiro Rui, Salette, Teresa, Joaquim e todo o pessoal da Stª Jacinta).

Uma palavra também para o Dr. Horácio Firmino pelo seu profissionalismo e humanismo que contribuíram também decisivamente para que a minha mãe tenha recuperado a dignidade, a qualidade de vida até ao último minuto, quando partiu serenamente a 24 de Agosto de 2006 vitimada por um ataque cardíaco fulminante.

Este meu contributo tem apenas um objectivo:

Como cuidadores nunca desistam, há sempre uma solução!


Lurdes Santos
2007