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Uma tal Senhora


Soube depois, muito tempo depois.
Era já tarde. Demasiado tarde
E essa dor, mais do que magoar, arde.
Soube que ela há muito vivia com o meu pai.
Com ele partilhava a cama e a mesa.
Baralhava-lhe os sentidos e os passos.
As palavras, os amores, os sentimentos.
Comandava os seus sorrisos e os seus lamentos.
Marcava-lhe o tempo e o compasso da dança.
E transformou meu doce pai numa desafinada criança.
Tornou-se dona e senhora do seu espaço.
Asfixiou-o com a traição de um abraço.
E fez dele um ser ausente, amordaçado.
Soube depois, muito, muito tempo passado.
Que a tal senhora, com nome masculino.
Que, a meu pai, tudo roubou, até o tino.
Que tantas vezes nos desesperou.
Que tanto fez sofrer, quem tanto nos amou.
Que nos obrigou a desejar a morte.
Em vez de tão malfadada sorte.
A tal senhora, de nome masculino.
Disse-me depois, já muito perto do fim.
Que, se calhar, me fará o mesmo a mim.
Chama-se Alzheimer. Não mata mas é doença.
E magoa muito mais do que se pensa.
Anda, por aí, impunemente, à solta.
Destruindo tudo e todos à sua volta.
E a impotência que sentimos perante tal dor.
É, proporcionalmente igual ao dobro do nosso amor.


Maria de Lourdes dos Anjos
2007