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De Colaboradora a Voluntária


Em 1984 o meu marido começou a ter alguns comportamentos fora do normal, como por exemplo, não sabia para que era o prato ou os talheres e mesmo peças de vestuário.

Comecei a ficar preocupada e resolvi levá-lo ao médico.
Durante nove anos foi um rosário: Centros de Saúde, médicos particulares e hospitais. Em 1993 fomos a um hospital, onde fomos muito bem atendidos, e no fim de muitos exames e consultas o médico disse que não havia mais nada a fazer, mas se lá para diante me visse muito aflita voltasse à consulta.

Pensei então tentar consultar um médico especialista em Neurologia, que tivesse consultório perto da minha casa. Em boa hora o fiz.

Tivemos a primeira consulta e foi marcada uma segunda consulta para dali a um mês. Depois de o médico ter ouvido o que eu tinha para dizer, ficou um momento em silêncio e disse que estávamos na presença de um caso muito sério, a doença de Alzheimer.

Fiquei assustada e conversei com os meus filhos sobre a situação. Soubemos então que no Hospital de Santa Maria havia um médico especializado naquela doença, o Professor Carlos Garcia e que tinha sido criada recentemente uma Associação para apoio aos familiares, amigos e doentes de Alzheimer.

Consegui uma consulta com o Professor Carlos Garcia que confirmou o diagnóstico anterior e o meu marido passou a ser acompanhado pelo Professor. E através da doutora Olívia fiz-me sócia da Associação. Passado pouco tempo recebi um convite para participar numa reunião que decorreu numa sala de aulas do Hospital de Santa Maria, uma vez que a Associação não tinha ainda instalações próprias.

Nessa reunião, a doutora Luísa Pomar Gonçalves perguntou-me se estaria disposta a colaborar com ela. Dada a situação do meu marido era difícil, mas dentro do possível daria a minha colaboração.

Passados poucos dias a doutora Luísa telefonou-me para saber se eu tinha disponibilidade para receber em minha casa uma aluna do Mestrado interessada em informações sobre a doença de Alzheimer. Aceitei e assim começou a minha colaboração.

Passado algum tempo fui solicitada para colaborar com um jornalista, depois com um escritor, com a revista Mulher Moderna, e outras solicitações se seguiram. Em Setembro de 1994 ou 1995, não posso precisar, recebi um telefonema do Telejornal do Canal 1 da RTP, informando que no dia seguinte, 21 de Setembro, dia Mundial da doença de Alzheimer, pretendiam fazer uma reportagem sobre a doença e que, por indicação da Associação, solicitavam a minha disponibilidade para os receber na minha casa.

No dia 21 de Manhã foi feita a reportagem, que passou no Telejornal à noite e da qual me foi enviada uma cassete.

O meu marido faleceu em 1998. Nesse ano o dia Mundial do Doente de Alzheimer foi assinalado com uma reunião no Hotel Meredien e mais uma vez dei o meu testemunho à RTP.

Em Novembro na Assembleia Geral da Associação, então realizada na Paróquia de S. Sebastião da Pedreira, a doutora Olívia perguntou-me se estava disposta a dar apoio a um casal que morava na Brandoa, em especial para ficar com a doente enquanto o marido viesse a Lisboa à consulta da esposa, uma vez que o estado da doente já não permitia a sua deslocação. Durante algum tempo cumpri o meu compromisso e todas as semanas ia um dia dar apoio moral, e quando necessário ficava com a doente durante as horas que o marido vinha à consulta a Lisboa. Como o casal não tinha absolutamente nenhum apoio na Brandoa, nem família, pensei numa forma de os ajudar melhor.

Através da proprietária de um estabelecimento perto da minha casa, que morava na Brandoa, consegui os contactos do Padre e da Assistente Social do Centro Paroquial e Social da Brandoa.

Junto da Associação de Alzheimer, à data já sediada na Rua João de Menezes dei conhecimento das diligências por mim efectuadas e solicitei à doutora Elsa, a Assistente Social então em funções na Associação, que entrasse em contacto com a sua colega de Brandoa para que fosse dado o apoio necessário àquele casal. Para grande alegria minha e satisfação da doutora Olívia pela minha iniciativa o casal passou a ter o apoio diário de que necessitava. Começou aqui o meu voluntariado.

Depois desta acção como voluntária, a pedido da doutora Luísa dei apoio a outros doentes, sendo o ultimo um senhor a quem, para além do apoio moral à esposa, acompanhei durante um dia para que a esposa pudesse ir ao casamento de uma neta. Quando o senhor faleceu acompanhei a família durante as cerimónias mantendo ainda o contacto com a esposa. O voluntariado cria muitas vezes laços de amizade.

Para alem desta actividade de voluntariado colaborei com a Associação, juntamente com elementos da Direcção e outras pessoas amigas nas celebrações do Dia Mundial do Doente de Alzheimer, nas mesas de divulgação e informação em Centros Comerciais de Lisboa e Amadora. No dia 21 de Setembro de cada ano vários grupos distribuíam documentação, folhetos, brochuras e pequenas lembranças com o logótipo da Associação, para dar a conhecer à população em geral o papel da Associação e alertar para a problemática da doença.

Mais recentemente fui convidada a participar, juntamente com a doutora Manuela Morais, num programa da manhã da TVI, para falar da doença de Alzheimer e da Associação. Posteriormente, em Abril do mesmo ano voltei a ser convidada pelo mesmo canal de televisão, tendo aproveitado a oportunidade para falar das várias valências da Associação e do seu contributo para a sociedade em geral e, em particular, para os familiares como cuidadores principais. A meu pedido foram passados durante o programa, em rodapé, os contactos da Associação.

Actualmente, devido a um problema de saúde das vias respiratórias que me obriga a ter de receber oxigénio, tive de abandonar o voluntariado com doentes.

Como a minha vontade de ajudar continua firme, além de estar sempre presente nas Assembleias Gerais, participo activamente todos os anos na Venda de Natal, onde me sinto estimada e integrada nas equipas presentes, assegurando a venda das rifas.

A Amiga dedicada à Associação e a todos os que fazem parte dela.

Aos 93 anos

Teresa Fradique
2010