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Carta ao Menino Jesus


Menino Jesus,

Sou uma mulher que começa a envelhecer e a pensar no que irá ser o seu amanhã. Sabes bem que sempre aceitei todos os factos da minha vida e que desde cedo compreendi que nem sempre a saúde, a prosperidade e outros aspectos da dita felicidade terrena, estão nas nossas mãos, mas também sabes que sempre achei que devíamos fazer o nosso melhor para termos um mundo mais justo e mais feliz.

Por isso sabes como sofro por ver fome, por ver guerra, por ver inocentes de todos os cantos da Terra a sofrerem pela ganância, pelo orgulho, pelo fanatismo e, infelizmente, também, pela ignorância e pelos nossos pecados de omissão, como cristãos. Por isso, Menino Jesus, estou à vontade para Te falar, porque me conheces e conheces todos os meus pensamentos desde que fui gerada. Creio nisso, Menino Jesus e Tu sabes que creio. Sabes que espero o dia em que a tua Lei será gravada no coração de todos os homens e mulheres da Terra e em já ninguém precisará de Te escrever, porque estarás sempre presente, em todos os corações. Até lá, Menino Jesus, ouve o que uma mulher que começa a envelhecer Te pede, em nome de todos os mais velhos da Terra.

Nós, os adultos, temos o hábito de dizer que o Natal é das crianças, mas não é só das crianças, pois não, Menino Jesus? O Natal é de todos, sobretudo dos mais pequeninos, porque mais pobres, mais fracos, mais desprotegidos, mais simples, mais humildes. Por isso me atrevo, este Natal, a falar - Te das minhas preocupações de mulher que começa a envelhecer e se revê noutros mais velhos, como espelho.

Qualquer dia, Menino Jesus, talvez deixe de saber governar-me sozinha; talvez deixe de saber lavar-me, vestir-me, de andar; talvez deixe de saber o que digo; talvez comece a ter que usar fraldas. Talvez, Menino Jesus, passe a ser outra vez bébé e desaprenda tudo quanto fui aprendendo ao longo de tantos anos. Talvez me sinta perdida, sem compreender onde estou, que dia é, quem são as pessoas que me rodeiam. Talvez possa até haver alturas em que já nem saiba quem sou. E então, Menino Jesus, é natural que ninguém da minha família tenha condições físicas e psicológicas para tomar conta de mim. É natural, Menino Jesus. É triste, mas é natural que eu tenha que ir para um lar. Mas, ó Menino Jesus, por favor, não me deixes ir para um lar daqueles que parecem a sala de espera da Morte, onde todos os velhos estão sentados a olhar o vazio, apenas à espera, à espera de partir para o Além. Eu sei, Menino Jesus, que ser empregada num lar de velhos é um trabalho difícil. Ganha-se mal e o trabalho é duro. Não é agradável mudar fraldas, dar banho a corpos velhos, falar com pessoas que não ouvem ou não percebem o que dizemos. Mas, Jesus Menino, enche os corações dos que trabalham em lares, de ternura, de afecto, de respeito, para que não me gritem quando eu não entender o que me dizem, para que nunca me tratem como uma coisa, mas sempre como pessoa. E que quanto mais ?vazia de mim? estiver, quanto mais pobre de corpo e de inteligência, mais me atendam, mais me escutem. Que nunca se esqueçam dos meus remédios, que nunca me dêem remédios a mais para eu ficar calada e quieta, que não me deixem ficar sentada ou deitada para sempre, a olhar o vazio, o tecto, à espera da morte.

É este o meu pedido Natal:

Manda os teus Anjos, Menino Jesus, tocar a vida de todos os que tratam dos mais velhos, os cuidam, os respeitam e os amam. Manda Anjos encher de bênçãos a vida de todas as mãos que os acariciam, de todas as vozes que os acalmam, de todos os rostos que lhes sorriem.

Obrigada, Menino Jesus, porque eu sei que escutas todos os que Te amam!


Fernanda Ruaz
Novembro de 2002