Pesquisa

AVC: como afeta a nossa memória?


O Acidente Vascular Cerebral (AVC) é uma das principais causas de demência secundária da atualidade. Em Portugal, segundo alguns autores, a cada hora 6 pessoas sofrem um AVC.

A Demência Vascular foi descrita pela primeira vez no século XIX por Binswanger e Alzheimer. Hoje é considerada uma síndrome heterogénea em que a causa subjacente é a doença cerebrovascular no seu último estadio. Poderá afetar a cognição, descrita como os processos mentais envolvidos na memória, na comunicação, no conhecimento e aprendizagem.

Segundo a DSM-5 é atribuído o diagnóstico de Demência Vascular quando os critérios clínicos são apoiados pela evidência em exame imagiológico de lesão do parênquima, atribuível a doença cerebrovascular, ou se existe relação temporal entre a síndrome neurocognitiva e o evento cerebrovascular documentado.
Nos doentes com clinica ou evidência imagiológica de doença cerebrovascular, devem ser pesquisados e tratados os fatores de risco vasculares, sobretudo a hipertensão arterial. Está indicado o uso de antagonistas dos canais de cálcio não só pelo seu efeito anti-hipertensivo mas também pelo efeito neuroprotetor anti-isquémico.

A diabetes é também um fator de risco a considerar. Vários estudos demonstraram que valores mais elevados das glicémias pós-prandiais e a elevação da hemoglobina glicosilada (HbA1C) em apenas 1% estão associados a maior declínio cognitivo.

Nos doentes com dislipidémia controlados com estatinas observou-se uma diminuição substantiva do risco de demência. Estes fármacos têm impacto na prevenção da doença cerebrovascular por reduzirem o colesterol (LDL) e pelo seu efeito pleiotrópico na função vascular inibindo a aterosclerose.

A doença vascular, como se verificou, é multifatorial. Segundo alguns autores a suplementação de ácido fólico, vitamina B12, B6 e B2, pode estar relacionada com a melhoria dos processos cognitivos, nomeadamente na memória.

O prognóstico da função cognitiva pode ser similar aos doentes com Alzheimer. Nos estadios terminais da demência vascular estes doentes e os seus cuidadores são confrontados com um maior grau de dependência física e psicológica, beneficiando de cuidados paliativos, efetivos no controlo de sintomas e no apoio à família.

Os doentes com antecedentes de AVC têm maior probabilidade de virem a ter alterações cognitivas. A perda de memória, segundo dados mais recentes, também pode ser um indicador precoce para risco de AVC. Excluídas outras causas, os indivíduos que apresentem esta alteração têm um risco acrescido de 20% de desenvolverem um AVC nos próximos 10 anos, por se considerar ser o primeiro sinal de lesões vasculares subclínicas.

As intervenções com impacto na correção dos fatores de risco e na alteração do estilo de vida como atividade física, cessação tabágica e alcoólica, perda de peso, estão associadas a maior preservação da função cognitiva ao longo do tempo.

Susete Freitas