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Sessões de “Teleterapia” com Pessoas com Demência e Cuidadores

Alzheimer Portugal
– partilha de uma nova experiência
Autor Tatiana Nunes 
Data 30-03-2020 
Sessões de “Teleterapia” com Pessoas com Demência e Cuidadores
– partilha de uma nova experiência



Alguns dos nossos serviços reinventaram-se e estão agora a prestar apoio que não pode ser presencial com recurso a meios alternativos, à distância.


O Coronavírus veio, de facto, obrigar-nos a reinventar a forma como vivemos e trabalhamos. Neste texto, partilhamos a nossa (muito recente) experiência para eventual incentivo a outros profissionais e instituições.



A 16 de março, 15 famílias do Centro de Dia da Casa do Alecrim ficaram sem o apoio especializado de 8h diárias. A perda de rotinas e referências pode tornar-se extremamente desorganizadora para as Pessoas com Demência, potenciando alterações comportamentais, cognitivas e funcionais significativas. A quarentena para estas (e tantas outras) famílias torna-se algo muito mais complexo do que “simplesmente ficar em casa”. Implica adaptar rotinas, gerir todas as dificuldades que vão surgindo e, na maioria dos casos, viver em isolamento. Se antes desta pandemia se alertava para a sobrecarga do cuidador, esta realidade torna-se agora ainda mais evidente.

Durante a primeira semana, a teleassistência a estes cuidadores veio reforçar a necessidade de manter o apoio à distância. Assim, temos promovido apoio a estas famílias através de telefone, e-mail e videochamada. Surgiu também a necessidade de implementar sessões terapêuticas - “teleterapia”. Identificaram-se inúmeras problemáticas que surgiram ou se acentuaram com a realidade da quarentena: a destruturação das rotinas, a alteração (e imposição) do ambiente físico e social, a perda de ocupações significativas e a diminuição da estimulação cognitiva/motora/sensorial, aspetos tão fundamentais na gestão da demência. Intensificou-se a necessidade de capacitar os cuidadores, que agora acompanham o seu familiar com demência 24h/24h.

A frequência e duração das sessões podem variar em função da capacidade/necessidade de cada pessoa, procurando-se garantir 2 a 3 intervenções semanais (30/50 minutos). Nos restantes momentos do dia, as Pessoas com Demência realizam fichas de estimulação cognitiva (entregues aos próprios no último dia do Centro de Dia ou enviadas por email) e são incentivadas a realizar outras ocupações significativas, negociadas entre a terapeuta e a família, como, por exemplo, fazer tarefas domésticas, jogar dominó/cartas/bingo/damas, caminhar pela casa/quintal, jardinagem, ver álbuns de fotografias, ouvir música, dançar ou cuidar de si. Assegura-se ainda o acompanhamento aos cuidadores, nomeadamente ao nível de apoio emocional, gestão de dificuldades diárias associadas à demência em tempo de quarentena, orientação para realização de atividades diárias e de estimulação e divulgação de serviços na comunidade.

Ontem, a Terapeuta Ocupacional Elena Pimentel, realizou uma sessão de teleterapia com uma senhora com Doença de Alzheimer em fase moderada: “Apercebi-me que, inicialmente, a senhora não me reconheceu. Notei-a apática, pouco expressiva e, tal como a própria verbalizou, “em baixo”(sic). Implementei uma intervenção com um formato semelhante a sessões realizadas em contexto de Centro de Dia (a consistência e a familiaridade são cruciais nesta doença). A senhora foi-se envolvendo, riu e sorriu, partilhou opiniões e informação autobiográfica, cantou e evocou o nome de cantores portugueses. No final, orientei-a para que escrevesse o seu nome, data e local onde estava. Conforme habitual, mantém-se desorientada não no tempo. Ditei a data, que a senhora escreveu. Perguntei “Está na sua casa, certo? Onde fica a sua casa?”. Respondeu sorrindo: “Não, agora não estou na minha casa, estou na Casa do Alecrim”, sendo necessária orientação externa. Apesar da desorientação espacial evidente, confesso que aquela resposta me transmitiu a importância destas sessões e, se ainda questionava este formato de intervenção, ali apercebi-me do seu potencial. De facto, durante aquele tempo, “estivemos na Casa do Alecrim”. Mesmo em quarentena as pessoas com demência continuam a dar-me grandes lições.”



Elena Pimentel Fonseca
Terapeuta Ocupacional | Responsável Centro Dia Casa do Alecrim