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Comentário do Prof Alexandre de Mendonça, membro da Comissão Cientifica

Alzheimer Portugal
notícia: "Prestes a ser aprovado primeiro medicamento que trava doença de Alzheimer"
Autor Tatiana Nunes 
Data 13-11-2020 
Tive a oportunidade de ser Investigador Principal, e também Coordenador Nacional, do ensaio clínico de fase 3, multicêntrico, aleatorizado, em dupla ocultação, controlado por placebo, de grupos paralelos, para avaliar a eficácia e a segurança do aducanumab (BIIB037) em participantes com doença de Alzheimer precoce, estudo com acrónimo ENGAGE e cujo promotor foi a Biogen.

A análise interina de futilidade planeada, conduzida por uma comissão independente de monitorização de dados, foi comunicada pelo promotor em 21 Março de 2019, indicando que seria improvável o ensaio clínico ENGAGE e o outro ensaio análogo, EMERGE, virem a atingir os endpoints primários definidos. Em palavras simples, a análise mostrou que não valia a pena continuar os estudos, pois seria inverosímil que o medicamento experimental, aducanumab, viesse a demonstrar eficácia. Os ensaios clínicos ENGAGE e EMERGE foram assim interrompidos, com desalento dos investigadores, da comunidade médica, presumivelmente do promotor, e acima de tudo dos doentes e seus familiares que participaram nos estudos. Um aspecto positivo foi que a decisão de interromper os ensaios não se deveu a preocupações de segurança que tivessem posto em risco inaceitável os participantes.

Surpreendentemente, o promotor anunciou em 22 de Outubro de 2019 que afinal o medicamento experimental seria eficaz. Uma análise ulterior, efectuada num conjunto alargado de doentes, encontrou que o aducanumab tinha revelado eficácia nos participantes que tinham tomado a dose mais alta do medicamento experimental no estudo EMERGE, e também uma tendência para ser eficaz naqueles participantes que tinham tomado a dose mais alta do medicamento experimental, e durante mais tempo, no estudo ENGAGE. Em 8 de Julho de 2020 o promotor, Biogen, comunicou que tinha feito a submissão do medicamento experimental para aprovação junto da FDA, a entidade reguladora do medicamento nos Estados Unidos da América.

Tem sido sempre considerado na comunidade científica que resultados de ensaios clínicos, obtidos em re-análises não planeadas, efectuadas em subgrupos de doentes, não permitem estabelecer benefícios clínicos. Na minha experiência, e de outros investigadores em doença de Alzheimer, quando se detectaram sinais de eficácia em subgrupos de doentes, os estudos confirmatórios realizados ulteriormente foram negativos. Mesmo assim, se o promotor acredita que o aducanumab poderá, apesar de tudo, ser eficaz, poderá propor um novo ensaio de fase 3, em doença de Alzheimer precoce, atingindo a dose mais alta do medicamento experimental, e recrutando um número de doentes que assegure um poder do estudo adequado. Até lá, não podemos afirmar que o aducanumab tenha benefícios clínicos. Só posso acreditar que as entidades reguladoras do medicamento mantenham nas suas decisões o elevado padrão de rigor científico a que estão vinculadas.


Alexandre de Mendonça, Membro da Comissão Científica da Alzheimer Portugal

Knopman DS, Jones DT, Greicius MD. Failure to demonstrate efficacy of aducanumab: An analysis of the EMERGE and ENGAGE trials as reported by Biogen, December 2019. Alzheimers Dement. 2020 Nov 1. 




Consulte a notícia abaixo: 


Prestes a ser aprovado primeiro medicamento que trava doença de Alzheimer
Cientistas afirmam que se trata igualmente do primeiro grande avanço em 20 anos no tratamento da patologia degenerativa do cérebro.

Reguladores norte-americanos alegam que existem "provas excecionalmente persuasivas" de que o fármaco Aducanumab, da farmacêutica Biogen Inc, funciona no tratamento da doença de Alzheimer, aquela que é uma das formas mais comuns de demência.

O novo tratamento poderá ser formalmente aprovado nos Estados Unidos no próximo mês de março, conforme reporta um artigo publicado no jornal The Sun. 

Segundo o periódico The New England Journal of Medicine, o último medicamento aprovado para a doença de Alzheimer foi o Mematine, que a agência reguladora de fármacos e alimentos FDA (Food and Drugs Administration) validou em 2003. 

O tratamento mais recente funciona ao atacar as proteínas as tóxicas presentes no cérebro -, que também são conhecidos como amilóide. 

Quando tomado em doses elevadas, pode retardar o declínio mental em um quarto, durante um período de 12 meses.

Entre aqueles que morrem da condição, muitos apresentam placas amilóides nos seus cérebros. 

Segundo os especialistas norte-americanos, o tratamento é capaz de criar artificialmente um anticorpo que, de seguida, se fixa na placa e a destrói. 

Ainda assim, o Aducanumab não é uma cura para a doença neurológica. 

Até ao momento já foram investidos milhões de dólares no medicamento e num comunicado a FDA declarou: "o candidato [Biogen Inc] forneceu provas médicas e científicas substanciais da efetividade do fármaco  que apoiam a sua aprovação".