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Entrevista sobre o ponto de situação da Covid-19 | Doutor R. Roncon-Albuquerque Jr.

Alzheimer Portugal
Resposta sobre a Covid-19, desde os gestos básicos até aos tratamentos mais recentes
Autor Tatiana Nunes 
Data 16-08-2021 
As Pessoas com Demência, tal como as pessoas saudáveis, podem ser afetadas com COVID-19. Felizmente, desde os primórdios da pandemia muito se aprendeu sobre ela, sobre o vírus SARS-Cov-2 que é a sua causa, sobre o tratamento e sobre as vacinas como prevenção eficaz contra a doença.

Com o objetivo de fazer um ponto da situação atual, fomos ouvir um especialista que desde o início esteve na primeira linha de combate à pandemia em Portugal:
O Doutor R. Roncon-Albuquerque Jr., docente universitário e especialista em Emergência e Medicina Intensiva e Coordenador da Unidade de Medicina Intensiva e do Centro de Referência ECMO do Hospital Universitário de S. João do Porto. 

Colocamos as questões que os Associados da Alzheimer Portugal mais gostariam de ver esclarecidas, desde os gestos básicos até aos tratamentos mais recentes.

1. Quase dois anos após os primeiros casos de  COVID-19 em Portugal ainda se justificam as medidas de proteção como uso de máscara e distanciamento social?

As medidas de mitigação da pandemia como o uso de máscara (especialmente em ambientes fechados) e o distanciamento social são tanto mais importantes quanto maior for a disseminação do vírus na comunidade e quanto menor for a cobertura vacinal na população. À medida que conseguirmos controlar a pandemia através da vacinação da população estas medidas vão assumir um papel progressivamente menos relevante e poderão, eventualmente, tornar-se desnecessárias. No entanto, na fase da pandemia em que nos encontramos estas medidas de mitigação ainda representam importantes medidas de saúde pública, em particular para proteção dos mais vulneráveis.

2. O que mudou com a vacinação?

Com a vacinação passámos a dispor de uma arma eficaz e segura para a prevenção das formas graves da COVID-19 associadas a internamento hospitalar e mortalidade elevada. Paralelamente, libertámos recursos para o tratamento de todos os Doentes não-COVID que tanto foram prejudicados durante a pandemia. Em suma, estamos a salvar milhares de vidas!

3. Em que estados da doença foram (e ainda são) necessários os cuidados intensivos?

A admissão em Cuidados Intensivos está reservada para os Doentes com COVID-19 grave caracterizada por insuficiência respiratória e necessidade de suporte respiratório (não-invasivo ou invasivo). Existem complicações mais raras da COVID-19 grave como a miocardite, o tromboembolismo pulmonar e o síndrome inflamatório multissistémico que podem também justificar a admissão em Cuidados Intensivos.

4. São só doentes idosos ou também há jovens que necessitam cuidados intensivos?

A COVID-19 pode assumir formas graves em qualquer faixa etária, desde as crianças até aos idosos. No entanto, sabemos que a probabilidade de doença grave é tanto maior quanto mais avançada for a faixa etária. 

5. O tratamento dos doentes também mudou. O que se aprendeu e o que evoluiu?

O tratamento dos Doentes com COVID-19 evoluiu de forma significativa desde o início da pandemia. Em primeiro lugar, já dispomos de medicamentos anti-inflamatórios/imunomoduladores (e.g. dexametasona, tocilizumab) que quando utilizados corretamente em Doentes internados, se acompanham de uma redução significativa da mortalidade. Nos Doentes não-internados, existe também evidência que a utilização de anticorpos monoclonais pode nos Doentes de maior risco, reduzir a progressão para formas mais grave e mesmo reduzir a mortalidade. Por outro lado, em termos de tratamento não-farmacológico, temos agora evidência mais robusta à cerca do papel de cada modalidade de suporte respiratório (não-invasivo e invasivo) no tratamento da COVID-19 grave. Em conjunto, estes progressos permitiram reduzir significativamente a mortalidade dos nossos Doentes.

6. A ECMO ajudou a minimizar as sequelas da doença?

A utilização da oxigenação por membrana extracorporal (ECMO) no tratamento da COVID-19 está reservada aos casos mais graves que falham o tratamento convencional e deve ser restrito a Centros de Referência com elevada casuística. Nestas condições o ECMO pode representar uma mais-valia no tratamento da COVID-19 grave em Doentes selecionados, em particular para evitar as consequências deletérias associadas à ventilação mecânica invasiva, como sejam a sedação, a imobilidade e a pneumonia associada à entubação. Estas complicações são um importante determinante da morbilidade e mortalidade dos Doentes.

7. Os custos de tratamento são relevantes?

Os custos do tratamento do Doente com COVID-19 grave são muito relevantes, em particular quando exigem admissão em Cuidados Intensivos. Pelo elevado número de Doentes afetados, os recursos necessários podem mesmo colocar em risco o tratamento dos Doentes não-COVID-19. Este é mais um argumento muito sólido em favor da vacinação e do tratamento das formas mais precoces da doença.

8. Os jovens também devem recear as sequelas da doença?

A presença de sequelas da COVID-19 (muitas vezes designadas por 'long COVID’) foram descritas tanto nos adultos como nas crianças. A prevalência e a gravidade destas sequelas nas crianças está neste momento a ser objeto de intensa investigação. 

De acordo com o Dr. Celso Pontes, neurologista e presidente da Comissão Científica da Alzheimer Portugal, será de reter: “a necessidade de manter os gestos básicos e a prudência, adaptadas a cada situação; a importância da vacinação para a defesa coletiva, desde os jovens aos idosos; que têm existido progressos nos tratamentos disponíveis; e que sempre que alguém fica doente isso tem custos económicos diretos e indiretos enormes, para todos nós como sociedade”.