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Alzheimer: cuidadores estão exaustos e clamam por ajuda

Notícias - Online
Entrevista JN | 21 de setembro 2020
Autor Tatiana Nunes 
Data 21-09-2020 
Para Cristina Bagão "não houve outra alternativa". O centro onde a mãe, uma ex-enfermeira de 86 anos que sofre de demência, passava o dia encerrou em meados de março na sequência da pandemia, levando-a a ter de deixar de trabalhar e a perder totalmente os rendimentos para ficar em casa a cuidar dela.

É uma das várias cuidadoras que se sente sobrecarregada pela falta de respostas sociais. Hoje assinala-se o Dia Mundial da Doença de Alzheimer, a forma mais comum de demência, e a associação Alzheimer Portugal alerta que os pedidos de apoio aumentaram 20% desde que a covid-19 obrigou a confinamento.

Durante três meses foram as duas, Cristina e a mãe, na casa de Cascais, "24 sobre 24 horas", com pequenas pausas para passeios de carro, saídas à rua durante 10 minutos ou breves visitas da neta. "Em três meses, o cansaço instalou-se e perdi a minha liberdade", explica Cristina, contando que a principal estratégia que encontrou foi criar rotinas para que "Candidinha", como carinhosamente trata a mãe, não sentisse tanto as mudanças.

Em junho, com a colaboração da família, a assistente de 56 anos conseguiu voltar a trabalhar em regime de meio tempo. Foi o que lhe valeu para "equilibrar as coisas e abrir a mente". Se não, "entramos em bloqueios e depressões e ficamos piores do que eles", desabafa.

Doentes mais agitados

Entre março e 16 de setembro, a Alzheimer Portugal registou 2271 atendimentos, um "aumento de 20%" comparativamente com igual período de 2019, avança Isabel Sousa, psicóloga da associação. Até em julho e agosto, meses em que as chamadas diminuem tradicionalmente por causa das férias, houve um aumento de 11%. Em setembro, altura em que a associação lançou uma campanha a falar sobre a doença, os pedidos de ajuda dispararam: até dia 16, o aumento era já de 44%.

"O facto de os centros de dia terem fechado, das pessoas estarem mais tempo em casa e com maior exposição aos desafios causados pela doença, pode estar a criar uma sobrecarga nos cuidadores e eles estarem a precisar de mais ajuda", explica Isabel Sousa. Nos atendimentos, quase todos via telefónica, "são muitos os casos de cuidadores que não estão a conseguir lidar com as situações e nos pedem ajuda".

Remetidos para confinamento em casa de familiares, "os doentes ficam com menos autonomia e mais agitados". De acordo com a psicóloga, em muitos dos contactos, os cuidadores "falam de um agravamento dos sintomas dos doentes", o que indicia que "os meses de maior isolamento podem ter contribuído para o aumento de sintomas das pessoas com demência, que estariam ainda relativamente autónomas e pioraram". Nestas chamadas, as pessoas com familiares com demência a cargo pedem "estratégias para lidarem com os doentes e o agravamento dos sintomas, a nível cognitivo e comportamental". Também querem ajuda para "encontrarem uma alternativa ao domicílio, nomeadamente lares ou alguma resposta social de instituições".

Estima-se que existam em Portugal entre 80 e 112 mil doentes de Alzheimer, a forma de demência mais comum. Não há cura, mas tem havido muita investigação para desenvolver novos tratamentos.

Ensaios clínicos dão esperança a doentes

Há dois ensaios clínicos a decorrer em Portugal com medicamentos biológicos, mais concretamente com anticorpos monoclonais, que foram desenvolvidos por farmacêuticas multinacionais e poderão ter poder para "estabilizar" a doença de Alzheimer, disse, ao JN, a neurologista Isabel Santana. "Não são medicamentos que atuam nos sintomas; são medicamentos que atuam no processo patológico", especificou. Um deles está em fase avançada e já terá sido, inclusivamente, submetido para aprovação da agência que regula a entrada de medicamentos no mercado norte-americano. Para serem comercializados em Portugal, os medicamentos têm de ser aprovados pela Agência Europeia de Medicamentos e pelo Infarmed, a Autoridade Nacional do Medicamento. De acordo com a neurologista, nos últimos anos tem havido muita investigação sobre esta doença, para a qual não há cura.