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Diário de uma musicoterapeuta no Centro de Dia da Casa do Alecrim (COVID-19)

Alzheimer Portugal
A 9 de Abril, a telemusicoterapia veio complementar os serviços de apoio à distância já a funcionar desde 16 de Março no Centro de Dia da Casa do Alecrim.
Autor Tatiana Nunes 
Data 13-04-2020 

A 9 de Abril, a telemusicoterapia veio complementar os serviços de apoio à distância já a funcionar desde 16 de Março. Estes serviços foram iniciados pela minha colega Elena, terapeuta ocupacional e coordenadora do Centro de Dia da Casa do Alecrim.


Atendendo às condições excecionais, este meu trabalho é alternativo a uma intervenção presencial, de proximidade.  Mas tenho agora a oportunidade de trabalhar individualmente com algumas Pessoas que frequentam o Centro de Dia! É tão bom! Permite tanta coisa diferente! Sem prejuízo da força terapêutica que o grupo tem, estar individualmente permite um fluir consoante a necessidade da pessoa que está do outro lado, naquele concreto momento, mesmo que através duma telejanela.

A situação é ideal para utilizar a música duma forma terapêutica? Não. A voz por vezes chega mais devagar, o som da guitarra em certas ligações não se ouve. Mas, pese embora estas “discrepâncias sonoro-técnicas”, o momento permite alegria, descontração e permite atenuar momentos menos leves.


E com satisfação verifico que há um reativar dos momentos passados nas sessões musicoterapêuticas de grupo da Casa do Alecrim. Há um trabalho de fundo já feito, com consistência. Por outro lado, certifico-me mais uma vez da importância da musicoterapia se focar, nesta área de intervenção, na celebração do momento, no centrar e trabalhar o aqui e agora e na procura de apontamentos emocionalmente significativos para a Pessoa.


O trabalho cognitivo, ora focado mais na atenção, ora mais na memória, onde saliento a memória autobiográfica, outras vezes na linguagem falada, no seu treino, entre outras áreas não menos importantes, está sempre presente e de forma não diretiva.


Há dificuldades sentidas nesta intervenção não presencial: falta a respiração próxima do outro, a proximidade física, a linguagem corporal, faltam alguns parâmetros ativos da voz que ajudam a descodificar melhor o estado interno da pessoa permitindo uma utilização mais eficiente dos elementos musicais; falta a imediatez da voz – sem delay.  O próprio contacto visual, tão importante na relação, é por vezes difícil de estabelecer nas teleligações...


No entanto, este trabalho permite que esteja mais próximo dos familiares que nestes tempos de proteção social são heróis, são duplamente heróis, são infinitamente heróis, confinados num espaço, dando o seu melhor. Esta intervenção pode, por vezes, ser uma oportunidade de alívio para alguns familiares, alívio, por momentos, do cuidar.


Neste presente, é importante manter a ponte, manter a ponte na significância das experiências. Agarrando um trabalho já feito, uma relação já construída, e mantê-la até que esta conturbação toda passe e o ponto de encontro seja na Casa do Alecrim!


Na 5ª feira, realizei uma sessão com um Senhor com quem trabalho há anos na Casa do  Alecrim. Engraçado, que mal ouviu a minha voz - e ainda não me tinha visto, pois a cuidadora estava a ajeitar o ecrã - disse com grande alegria: “É a Gabriela!” e a sessão foi realmente quase uma espécie de celebração do reencontro. Este Senhor esteve sempre muito, muito feliz e lá terminámos com as nossas peculiares desgarradas em que começamos a inventar letras em melodias conhecidas. São letras que giram à volta do dia, do mês, do estar ali, do nome de cada um, de como nos sentimos e tudo o mais que surja no momento, num profundo trabalho de estimulação.


Na 6ª feira, estive com uma Senhora que acompanho também há anos na Casa do Alecrim. Muito engraçado! Cantámos 3 ou 4 canções mas apenas o início, porque foi o suficiente para a esta Senhora ir buscar episódios da sua infância. Episódios felizes e que lhe são atualmente muito importantes, pelos desafios cognitivos que estão a aumentar em relação à informação recente. Esteve sempre entusiasmada. Conheci a vizinha, alegre, que esteve no início a ajudar a estabelecer a ligação e que apareceu discretamente na parte final para dar apoio a desligar o computador.

É um trabalho que permite neste momento manter as pontes já construídas na Casa do Alecrim e de alguma forma preparar o retorno à normalidade para um momento que todos queremos que não demore muito...


Maria Gabriela Nicolau

Musicoterapeuta Certificada na Casa do Alecrim