Um anticorpo monoclonal dirigido contra o b amilóide, lecanemab, recebeu recentemente aprovação nos Estados Unidos da América para o tratamento da doença de Alzheimer 1, e foram publicados resultados positivos de um ensaio clínico com outro anticorpo monoclonal anti-b amilóide, donanemab 2.

A investigação clínica com anticorpos monoclonais anti-b amilóide não é recente. Vários centros em Portugal deram importante contributo nesta área clínica, participando em ensaios com esses medicamentos experimentais nas últimas duas décadas.

A novidade é que estes dois novos anticorpos monoclonais anti-b amilóide, recorrendo a ensaios clínicos de grande dimensão, foram capazes de demonstrar efeitos estatisticamente significativos sobre a progressão da doença de Alzheimer.

Na verdade, o efeito clínico destes novos anticorpos monoclonais anti-b amilóide é modesto. Os doentes continuam a declinar, e a diferença do declínio em relação ao placebo, aos 18 meses, revela-se de difícil valorização clínica, sendo inferior a um ponto numa escala comummente utilizada, a Avaliação Clínica da Demência 3 (Clinical Dementia Rating – CDR), soma das caixas 2,4, ou seja, menor que o considerado corresponder a significado clínico mínimo 5. Pelo contrário, estes medicamentos têm efeitos secundários frequentes e potencialmente graves, notadamente edema vasogénico e micro-hemorragias cerebrais 2,3. Mesmo que estes novos medicamentos venham a ser aprovados na União Europeia, a relação entre o benefício e o risco, questionada por vários especialistas 6, terá de ser sempre cuidadosamente ponderada. Um aspecto crucial que carece esclarecimento é como será a evolução do pequeno benefício clínico detectado além dos 18 meses contemplados nos ensaios clínicos, será desejavelmente mais notório, manter-se-á, ou poderá atenuar-se e desaparecer?

Por outro lado, os desafios logísticos da eventual administração destes anticorpos monoclonais anti-b amilóide a grande número de doentes de Alzheimer potencialmente elegíveis 7 serão extraordinários, tendo em conta que requerem infusão endovenosa, quinzenal ou mensal, em ambiente hospitalar, e exigem realização de ressonâncias magnéticas cerebrais periódicas para detecção precoce de efeitos secundários.

Teremos ainda de reconhecer que os custos associados à eventual administração em larga escala destes medicamentos parecem incomportáveis. O custo do tratamento com lecanemab, assumindo o preço praticado nos Estados Unidos, ascenderia a mais de metade de todo o valor despendido em medicamentos na União Europeia 8.

Só podemos esperar que o alvoroço levantado pelas notícias destes anticorpos monoclonais anti-b amilóide não desmotive o desenvolvimento de novas terapêuticas inovadoras que possam efectivamente, de forma segura e praticável, atenuar a progressão da doença de Alzheimer.

 

Prof. Doutor Alexandre de Mendonça

Membro da Comissão Científica da Alzheimer Portugal

 


[1] https://www.fda.gov/news-events/press-announcements/fda-converts-novel-alzheimers-disease-treatment-traditional-approval.

[2].Sims JR, Zimmer JA, Evans CD, Lu M, Ardayfio P, Sparks J, Wessels AM, Shcherbinin S, Wang H, Monkul Nery ES, Collins EC, Solomon P, Salloway S, Apostolova LG, Hansson O, Ritchie C, Brooks DA, Mintun M, Skovronsky DM; TRAILBLAZER-ALZ 2 Investigators. Donanemab in Early Symptomatic Alzheimer Disease: The TRAILBLAZER-ALZ 2 Randomized Clinical Trial. JAMA 2023 Jul 17. doi: 10.1001/jama.2023.13239.

[3] Escalas e Testes na Demência, Grupo de Estudos de Envelhecimento Cerebral e Demência, Lisboa.

[4].van Dyck CH, Swanson CJ, Aisen P, Bateman RJ, Chen C, Gee M, Kanekiyo M, Li D, Reyderman L, Cohen S, Froelich L, Katayama S, Sabbagh M, Vellas B, Watson D, Dhadda S, Irizarry M, Kramer LD, Iwatsubo T. Lecanemab in Early Alzheimer’s Disease. N Engl J Med 2023 Jan 5;388(1):9-21. doi: 10.1056/NEJMoa2212948.

[5] Lansdall CJ, McDougall F, Butler LM, Delmar P, Pross N, Qin S, McLeod L, Zhou X, Kerchner GA, Doody RS. Establishing Clinically Meaningful Change on Outcome Assessments Frequently Used in Trials of Mild Cognitive Impairment Due to Alzheimer’s Disease. J Prev Alzheimers Dis 2023;10(1):9-18. doi: 10.14283/jpad.2022.102.

[6] Høilund-Carlsen PF, Revheim ME, Costa T, Alavi A, Kepp KP, Sensi SL, Perry G, Robakis NK, Barrio JR, Vissel B. Passive Alzheimer’s immunotherapy: A promising or uncertain option? Ageing Res Rev 2023 Jul 5;90:101996. doi: 10.1016/j.arr.2023.101996.

[7] Wimo A, Jönsson L, Johansson G, Winblad B. Lecanemab: The Price of a Breakthrough. touchREVIEWS in Neurology 2023;19(1).

[8].Jönsson L, Wimo A, Handels R, Johansson G, Boada M, Engelborghs S, Frölich L, Jessen F, Kehoe PG, Kramberger M, de Mendonςa A, Ousset PJ, Scarmeas N, Visser PJ, Waldemar G, Winblad B. The affordability of lecanemab, an amyloid-targeting therapy for Alzheimer’s disease: an EADC-EC viewpoint. Lancet Reg Health Eur 2023 May 22;29:100657. doi: 10.1016/j.lanepe.2023.100657.

 

julho 2023