
O vasto espectro de entidades nosológicas caracterizadas primariamente por alterações no desempenho cognitivo, vulgo demências, assim como determinadas comorbilidades, particularmente incidentes nos mesmos grupos etários, contribuem para a diminuição da qualidade de vida e bem-estar do doente, bem como dos seus familiares e/ou cuidadores.
Estas circunstâncias assumem especial relevância devido às recentes dinâmicas da população portuguesa. Efetivamente, no início do corrente século observou-se a inversão da pirâmide demográfica que, associada a uma quebra histórica da taxa de natalidade, aumento da esperança média de vida e fluxo emigratório de jovens consubstanciam um agravamento do envelhecimento demográfico e da diminuição da população residente em Portugal. Esta situação demográfica tem implicações óbvias no volume e tipo de cuidados de saúde prestados à população, dado que configura uma redistribuição de necessidades populacionais subjacentes. É assim expectável um aumento assinalável de doenças associadas ao envelhecimento. Esta circunstância torna-se ainda mais relevante dado que as respostas que existem atualmente estão ainda aquém das reais necessidades.
A Associação Alzheimer Portugal tem contribuído decisiva e empenhadamente no sentido de colmatar esta lacuna. A Casa do Alecrim é um exemplo paradigmático de sucesso neste campo de intervenção, uma vez que oferece uma resposta de qualidade aos que enfermam directa ou indiretamente de demência e/ou de um vasto leque de patologias associadas a esta doença.
Na Casa do Alecrim são prestados cuidados de natureza diversa e em contextos relativamente distintos. Esta instituição apoia pessoas internadas em regime de cuidados continuados, no centro de dia, assim como em regime de apoio domiciliário.
Na qualidade de Psicóloga tenho podido testemunhar a qualidade do trabalho desenvolvido nesta instituição, sentindo que cresço profissional e humanamente enquanto membro ativo de uma excecional equipa multidisciplinar.
As funções que tenho vindo a desempenhar desenvolvem-se em dois grandes eixos: avaliação e intervenção.
A avaliação compreende uma entrevista clínica completa, que inclui a aplicação de ferramentas de índole neuropsicológica complementares devidamente aferidas para a população portuguesa.
Este procedimento permite uma compreensão integrada da pessoa, tendo simultaneamente em conta as vertentes biológica, psicológica e socio-familiar. Também importa referir que é realizado num momento inicial, de primeiro contacto, e repetido periodicamente no sentido de proporcionar um acompanhamento adequado da evolução clínica ao longo do tempo.
Este método revela-se de particular importância se for tido em conta que permite obter uma maior compreensão das particularidades inerentes a cada situação individual. Por exemplo, permite-nos objectivar o perfil de desempenho cognitivo de modo estratificado para cada domínio, identificar outros problemas do foro psicológico que se podem sobrepor ao quadro, assim como compreender as preferências individuais determinadas pelo seu percurso de vida. Estes dados orientam a escolha das estratégias terapêuticas individuais e dirigidas para que se promova uma colaboração terapêutica produtiva, por um lado, e, por outro, para que o programa de intervenção seja conduzido com o maior grau de humanismo possível.
No que concerne à intervenção neuropsicológica dirigida às alterações cognitivas observadas no envelhecimento patológico, em particular, recorro a múltiplas estratégias como, por exemplo, a Programas de Treino Cognitivo e à Terapia da Reminiscência .
No que diz respeito aos Programas de Treino Cognitivo, a Casa do Alecrim tem tido à disposição dos utentes várias ferramentas em diferentes formatos. Desde o papel e lápis, passando por alguns acessórios, até aos instrumentos de vanguarda tecnológica na área como a ferramenta informática de Treino Cognitivo Online – COGWEB®.
Atualmente são realizadas durante a semana várias intervenções de estimulação cognitiva na Casa do Alecrim com o objectivo de maximizar o funcionamento cognitivo e social e promover sensações de bem-estar nos utentes, que são convidados a participar voluntariamente. As intervenções terapêuticas são realizadas tanto individualmente como em grupo.
As sessões individuais realizam-se com uma periocidade de uma a duas sessões de 40 minutos por semana, dependendo das necessidades. É neste contexto que recorremos a ferramentas como o COGWEB®.
Esta plataforma informática tem-se revelado extraordinariamente versátil na medida em que permite que o técnico escolha o plano de exercícios de acordo com necessidades individuais previamente aferidas através de testes psicométricos. Deste modo, são escolhidos exercícios dirigidos ao perfil de desempenho cognitivo por domínios. Acresce que esta plataforma apresenta alguma redundância no que respeita aos exercícios disponíveis para cada domínio viabilizando o desenho de um programa atendendo às preferências individuais e, assim, promovendo uma colaboração terapêutica mais estreita e produtiva. Podemos ainda referir que, tratando-se de uma ferramenta online, os exercícios podem ser realizados no domicílio. Esta característica permite que o técnico avalie se o plano proposto está a ser cumprido e oferece uma oportunidade de integração dos cuidadores nas atividades de estimulação.
Em suma, esta ferramenta parece-nos muito bem concebida. Registo, por exemplo, alguns pormenores que podem passar despercebidos, mas que se têm revelado como extraordinariamente úteis. Os mecanismos de recompensa, ativados quando o exercício é concluído com sucesso, oferecem uma motivação adicional que tem reforçado a participação. Acresce que a sua utilização é muito intuitiva. De facto, grande parte os doentes que a estão a utilizar nunca tinham contactado com um computador. Esta barreira que se poderia firmar como uma dificuldade praticamente intransponível felizmente tem sido vista como um desafio que oferece uma motivação adicional para participar ativamente nestas sessões.
Já as intervenções de grupo ocorrem com uma periocidade de duas sessões de 60 minutos por semana, existindo de momento dois grupos com um reduzido número de elementos escolhidos criteriosamente tendo em conta o seu grau de autonomia e funcionamento.
Quando o programa de treino cognitivo é em grupo recorre-se a exercícios como por exemplo de papel e lápis, jogos e passatempos orientados. Estas sessões são mais dinâmicas e favorecem a comunicação entre os utentes, que se revelam mais espontâneos dado que se sentem menos observados/avaliados pela técnica, comparativamente às sessões individuais.
A sessão de Terapia da Reminiscência ou de Revisão de Vida tem como objectivo guiar progressivamente os utentes para a recordação detalhada de tudo o que é possível relativo à sua vida, como forma de estimular a memória autobiográfica, preservar a sua identidade e promover a interação social e a motivação e combater a apatia. As sessões de Terapia da Reminiscência ocorrem semanalmente e são realizadas em grupo também com um número de elementos reduzido, que foi selecionado criteriosamente à priori. Nestas sessões são frequentemente usados recursos facilitadores como fotografias, jornais, filmes e músicas antigas para levar os doentes a recordar aspectos importantes da sua vida. Cada sessão comporta um tema diferente, sendo que este tem por base recordações significativas da vida dos doentes. Durante este tipo de intervenção, os doentes têm demonstrado capacidade para recuperar, de forma estruturada, eventos do passado, evocar lembranças e partilhá-las com os restantes elementos do grupo, o que tem gerado uma maior socialização.
Pessoalmente, o trabalho que tenho vindo a realizar nesta instituição tem sido muito gratificante. Sinto que tenho contribuído para a felicidade daqueles que sigo e, por inerência, sinto-me também realizada. Ao observar a evolução destas pessoas cujo investimento terapêutico é visto, por alguns, com pouca esperança, tenho sido presenteada todos os dias com ganhos que, embora pequenos, em perspetiva parecem monumentais e superam todas as nossas expectativas.
Graça Maria Sanches Fernandes