SAÚDE

Portugal é o quarto país da OCDE com maior número de casos de demência e está entre os países com pior resposta para este grave problema de saúde mental. Faltam médicos especialistas para seguir estes doentes, orientações clínicas e formação para o diagnóstico nos cuidados de saúde primários, falta articulação entre os cuidados de saúde e sociais e faltam respostas da comunidade para que estes doentes sejam independentes o maior tempo possível.
No relatório “Cuidados necessários: Melhorar a vida das pessoas com demência”, ontem divulgado pela OCDE, Portugal está no final da tabela entre 45 países, com uma taxa de prevalência de demência de 19,9 casos por 100 mil habitantes, bem acima da média da OCDE (14,8). Pior, só o Japão, a Itália e a Alemanha.
A demência está intimamente associada ao envelhecimento da população e a projeção para 2037 não é animadora: 31,3 casos por 100 mil habitantes, o que poderá significar uma subida ao terceiro lugar em termos de prevalência (ver infografia). Um retrato mais abrangente diz-nos que, em 2017, a demência atingia 19 milhões de pessoas nos países da OCDE, número que deverá disparar em 2050 para os 41 milhões. Os custos de saúde e sociais da demência nos países da OCDE estão estimados em 847 mil milhões de euros por ano.
Portugal figura também entre os países com menos especialistas para acompanhar doentes com demência. Segundo o relatório da OCDE, Portugal tem 12 psiquiatras e cinco neurologistas por cada 100 mil habitantes, um rácio muito inferior ao da Suíça, que surge destacada no primeiro lugar com um rácio de 5 0 psiquiatras e sete neurologistas por cada 100 mil habitantes.
Naquele que é o primeiro relatório da OCDE que faz o retrato e a comparação dos países na área da demência, Portugal sai mal na fotografia, mas salvo um punhado de países que já avançaram com respostas concretas nesta área, o problema é generalizado. Falta investimento, há milhões de pessoas por diagnosticar, as respostas são fragmentadas e há dificuldades e desigualdades no acesso aos cuidados existentes.
Até a informação estatística sobre o tema é pobre. Menos de 40% dos países são capazes de estimar as respetivas taxas de diagnóstico da demência e apenas dois (Reino Unido e Dinamarca) estabeleceram metas para melhorar estas taxas.
Em Portugal, os cuidados de saúde primários são o primeiro local de deteção de sinais de demência, sendo os doentes depois referenciados para especialistas. A este propósito, o relatório da OCDE alerta que os médicos de família têm pouca formação nesta área – uma média de 12 horas de prática no curso – o que leva a que 25% a 50% dos casos fiquem por diagnosticar.
O JN questionou, através da Direção-Geral da Saúde, o diretor do Programa Nacional para a Saúde Mental sobre algumas das deficiências apontadas, mas não recebeu resposta.
ENTREVISTA
É urgente plano para demências
José Carreira – Presidente Alzheimer Portugal
Como vê este retrato da demência em Portugal?
Infelizmente, vem reforçar as nossas preocupações. Penso que não deve ser dissociado de um recente relatório da União Europeia sobre o envelhecimento da população – o principal fator de risco da demência – que diz que Portugal até 2060 terá 8 milhões de habitantes e que 50% da população não estará a trabalhar. A questão é: quem é que vai cuidar das pessoas com demência e que condições é que a nossa população terá para tratar dos seus entes queridos? Isto vem reforçar a urgência de um plano nacional para as demências.

O relatório diz que Portugal é dos países com menos especialistas para estas doenças…
É óbvio que nos preocupa este indicador. Com mais especialistas teríamos uma resposta mais assertiva. Mas é importante realçar que precisamos de uma resposta de saúde, mas também social, às famílias e cuidadores, e por isso é que é tão importante o tal plano para agregar estes setores.
Fonte: Jornal de Notícias