
Desde que a Organização Mundial de Saúde (OMS) identificou, em março de 2020, a COVID-19 como uma pandemia global, esta já causou a morte de quase 670.000 pessoas na UE / EEE, com mais de 29 milhões de casos relatados até esta data. Neste momento, o Centro Europeu de Prevenção e Controlo de Doenças (ECDC) alerta que a transmissão de COVID-19 ainda é generalizada.
Com a primeira aprovação de uma vacina contra a COVID-19, anunciada pela Agência Europeia de Medicamentos (EMA) em dezembro de 2020, e com as campanhas de vacinação em curso em toda a Europa, este documento de posição delineará por que é imperativo que as Pessoas com Demência e os seus Cuidadores sejam priorizados nas estratégias de vacinação.
O impacto negativo desproporcional da COVID-19 em Pessoas com Demência
As formas mais graves de COVID-19 afetam predominantemente adultos mais velhos e indivíduos com condições de saúde subjacentes, sendo que 95% das mortes relacionadas com a COVID-19 na Europa foram de pessoas com mais de 65 anos. Além disso, cerca de 40% das mortes por COVID-19 em todo o mundo atingiram residentes em instituições de longa permanência.
As Pessoas com Demência têm quase o dobro do risco de desenvolver COVID-19 em comparação com os seus pares sem demência, com altas taxas de hospitalização e risco de mortalidade em seis meses, atingindo aproximadamente os 20% em certas populações. Aqueles que são infetados também são mais propensos a desenvolver alucinações, o que pode causar complicações na monitorização da sua saúde cognitiva, atual e futura.
Algumas medidas de saúde pública (por exemplo, o cancelamento de apoios/serviços em formato presencial) também tiveram um impacto negativo no bem-estar das Pessoas com Demência e dos seus Cuidadores. Suportes e serviços reduzidos ou cancelados, interrupção de rotinas e falta de estimulação cognitiva resultaram num aumento de ansiedade, agitação, stress e depressão. Para algumas Pessoas com Demência, em particular, isso resultou na aceleração do declínio cognitivo. Para os Cuidadores, mais responsabilidades de cuidados e menos apoios tiveram também impacto sobre sua saúde física e mental. É claro que a pandemia COVID-19 exacerbou as desigualdades existentes e gerou novas.
A necessidade de vacinação prioritária para Pessoas com Demência e seus Cuidadores
A vacinação representa a importante pedra angular dos esforços globais contra a COVID-19. Os Estados-Membros da UE são responsáveis pelo desenvolvimento e implementação das suas próprias estratégias de vacinação que, embora partilhem objetivos comuns (redução da mortalidade por COVID-19 e alívio da pressão sobre os sistemas de saúde e cuidados), são consideravelmente diferentes na abordagem e rapidez de implantação.
A priorização de diferentes grupos varia significativamente entre os vários países, no que à vacinação contra a COVID-19 diz respeito. A grande maioria dos países europeus priorizou para as primeiras fases da vacinação os profissionais de saúde da linha de frente, os residentes em instituições de longa permanência, os idosos mais velhos e, em menor número, os profissionais de assistência social e cuidadores profissionais (ECDC 2021). No entanto, poucos países priorizaram os Cuidadores Informais, uma omissão crítica tendo em conta o seu contacto próximo com grupos vulneráveis e as contribuições valiosas que representam para os sistemas e economias de cuidados.
Muitos países identificaram grupos de risco com condições de saúde específicas, priorizando as pessoas com essas condições para a vacinação COVID-19, que incluem mais frequentemente as pessoas com cancro, problemas respiratórios graves, doenças renais e cardíacas avançadas e deficiências imunológicas. No entanto, a Demência não é comumente assinalada como um fator de risco. Consequentemente, e apesar do risco acrescido de virem a sofrer de COVID-19 grave, em muitos países as Pessoas com Demência podem não ser priorizadas para a vacinação contra a COVID-19. Este é particularmente o caso das pessoas que vivem na comunidade e que não estão nas faixas etárias mais velhas, como Pessoas com Demência de início precoce, que representa 6 a 9% dos diagnósticos de Demência e afeta aproximadamente 1 em 100 pessoas entre os 60 e os 64 anos.
As Pessoas com Demência e os seus Cuidadores têm sido afetados de forma desproporcional pela pandemia e continuarão a ser enquanto esta durar. Assim, as estratégias de priorização de vacinas devem reconhecer a maior necessidade, já comprovada, das Pessoas com Demência e dos seus Cuidadores, uma vez que se trata de uma população de alto risco por direito próprio. Não se pode presumir que as Pessoas com Demência já estejam cobertas por outros sistemas de priorização com base apenas na idade ou local de residência (por exemplo, em lares de idosos).
Além disso, os desafios adicionais que as Pessoas com Demência podem enfrentar para receber sua vacinação (por exemplo, dificuldade de acesso aos centros de vacinação) devem ser considerados e abordados quando da implementação das estratégias de vacinação.
Alzheimer Europe apela à ação
É vital que os governos priorizem as Pessoas com Demência e seus Cuidadores nas suas estratégias de vacinação COVID-19 e protejam a saúde e o bem-estar de uma população que está em maior risco de contrair e sucumbir à COVID-19.
Para este fim, a Alzheimer Europe apela aos governos para:
• Incluir a Demência como uma categoria de risco para a COVID-19 grave, priorizando as Pessoas com Demência para a vacina COVID-19, independentemente da idade, local de residência ou outros fatores de risco para contrair COVID-19 grave;
• Priorizar Cuidadores Informais para a vacina COVID-19, dado que se reconhece o seu importante contributo durante a pandemia no que se refere aos cuidados, apoios e até mesmo à sobrevivência de Pessoas com Demência, assim como a proteção indireta que a vacinação pode conferir à pessoa de quem cuidam;
• Garantir, ao organizar e lançar a vacinação das Pessoas com Demência, que são preparadas acomodações adequadas e implementados mecanismos de apoio como, por exemplo, a possibilidade de ser vacinado em casa e de ter apoio na tomada de decisão, se necessário.
A Alzheimer Europe redigiu um documento de acompanhamento a esta posição, que disponibiliza um contexto mais amplo relativamente ao impacto da COVID-19 nas Pessoas com Demência, bem como explora considerações éticas e de direitos humanos em torno da vacinação das pessoas com capacidade reduzida. O impacto da pandemia COVID-19 na capacidade legal e na tomada de decisão das Pessoas com Demência foi descrito com mais detalhe no Relatório da Organização de 2020 “Capacidade legal e tomada de decisão: As implicações éticas da falta de capacidade legal na vida das Pessoas com Demência”
Adotado pela Direção da Alzheimer Europe em 7 de maio de 2021
Aceda AQUI para descarregar o PDF do Briefing e Declaração de Posição da Alzheimer Europe em relação à priorização das Pessoas com Demência para a vacinação COVID-19