
O curso de terapia ocupacional inclui unidades curriculares que visam o desenvolvimento de competências técnicas e outras, o desenvolvimento de competências pessoais. Segundo a Professora Cristina Vieira da Silva, no âmbito da unidade curricular Desenvolvimento Pessoal II pretende-se que: os alunos reconheçam a importância de comunicar e compreender o outro; respeitem as diferenças individuais e a influência que estas têm na ocupação e na participação; reflitam sobre o seu comportamento em situações grupais; e apliquem estratégias facilitadoras de interação grupal. Associando estes objetivos de aprendizagem à abordagem centrada na pessoa com demência (Kitwood, 2007), em 2017 desenvolveu-se o Projeto “Entre Gerações”, em que se relacionam utentes da Casa do Alecrim – Alzheimer Portugal e alunos do 2º ano de licenciatura em terapia ocupacional da Escola Superior de Saúde do Alcoitão.
A evidência revela que as atividades baseadas na estimulação cognitiva em grupo contribuem para a melhoria da cognição global e do funcionamento social, sendo fortemente recomendadas (Aguirre et al., 2013). A reminiscência potencia a evocação de memórias pessoais, através de atividades maioritariamente baseadas na estimulação da memória explícita e linguagem, que incentivam os participantes a partilhar experiências e conhecimentos sobre o passado. Em contexto intergeracional este tipo de sessão promove benefícios para ambos os grupos de participantes (Chung, 2008), salientando-se que os jovens agem como facilitadores para as pessoas com demência partilharem as suas vivências e opiniões.
As sessões deste projeto tiveram a duração de 90 minutos e incluíram 4-6 pessoas com demência (fase inicial a moderada) e 3-4 jovens. Ali todos usavam o nome ao peito e as perguntas (autobiográficas; opiniões pessoais) escritas em cartões eram lidas em voz alta pelos participantes, estratégias compensatórias que permitiram facilitar a interação e diminuir a evidência dos défices cognitivos dos utentes.
Neste contexto fomentou-se a valorização absoluta destas pessoas (independente da sua idade e capacidades cognitivas) (Kitwood, 2007). Cada pessoa era reconhecida como um ser único, através da sua história de vida e opiniões, identificando-se que os alunos interiorizavam esta perspetiva, “foi tão interessante, eu esqueci-me complemente que aquelas pessoas têm demência. Vi-os apenas pessoas mais velhas a partilhar as suas histórias e fiquei fascinada” (sic). Efetivamente, o contexto terapêutico e, acima de tudo, o ambiente social rico e positivo permitiram contornar as limitações de cada um, dando a oportunidade de se voltarem a sentir capazes, úteis e com identidades ocupacionais que merecem ser valorizadas.
No final da primeira sessão, a jovem M. perguntou “E o senhor, como se sentiu aqui?”. O Sr. J. sorriu e respondeu “senti-me mais agasalhado”. Isto, mais do que evidenciar défices ao nível da linguagem, representou a importância de se promover um ambiente “quente”, rico num interesse genuíno que permite “aquecer” quem enfrenta constantes perdas e limitações.
Ao constatar a capacidade de expressão dos utentes e a motivação em “dar lições de vida aos mais novos” (sic), clarifiquei que os jovens eram estudantes de terapia ocupacional. Pedi que tentassem expressar o que “um bom terapeuta deve ter para ajudar as pessoas” (sic). Prontamente, os participantes reforçaram a necessidade de um terapeuta ter de ser compreensivo, paciente, “saber ouvir e dar resposta em conformidade” (sic), mas acima de tudo “ter um bom coração” (sic) e “ter muito amor para dar” (sic). Assim, estas pessoas com demência deram voz e verdadeiro sentido à citação de Carl Jung: “conheça todas as teorias, domine todas as técnicas, mas ao tocar numa alma humana, seja apenas outra alma humana”. Para aqueles alunos (e para mim, já terapeuta), aquelas palavras foram uma verdadeira lição. Nessa sessão apercebi-me do potencial deste projeto. As pessoas com demência estão a contribuir ativamente para a formação de terapeutas (e jovens adultos) mais humanos.
Este ano letivo o projeto terá continuidade e foi expandido para uma duração anual.
Elena Pimentel Fonseca
Terapeuta Ocupacional