
Com a entrada em dezembro, chegam vários sentimentos e recordações associados a este mês. O frio já aperta, os cachecóis e guarda-chuvas fazem parte da indumentária de cada dia e, em toda a parte, começamos a ver as decorações de Natal a preencher as ruas.
Para as Pessoas com Demência, esta altura do ano pode ser um misto de emoções. Se por um lado, estas decorações espalhadas ao seu redor podem despoletar memórias prazerosas e ajudar a orientar-se temporalmente, por outro lado, as alterações nas suas rotinas ou o excesso de estímulos podem contribuir para uma maior agitação ou desorientação.
Este ano, o Natal será diferente. Graças à atual situação pandémica, vivemos um tempo como nunca antes visto. As recomendações passam, entre outras, por reduzir os contactos, antes e depois da quadra festiva, limitar as celebrações ao agregado familiar com quem se habita e manter o distanciamento, mesmo numa altura do ano que é tão conhecida pelos abraços apertados e pelos reencontros familiares (Para ver as 10 sugestões para esta quadra, consulte AQUI)
Face à atual situação, consideramos que a Pessoa com Demência e os seus Cuidadores poderão confrontar-se com 1 dos 3 cenários seguintes:
1- Passar o Natal com a família, incluindo as refeições e celebrações;
2- Receber visitas de familiares, fora do agregado familiar, de curta duração;
3- Não receber visitas/ encontrar-se numa instituição.
Iremos partilhar algumas estratégias para cada um destes cenários, concluindo com recomendações gerais.
1 – Passar o Natal em família
O Natal é muitas vezes sinónimo de juntar a família à volta da mesa, com doces e pratos típicos desta altura do ano. Partilham-se histórias e recordações de bons momentos passados. Neste caso, sugerimos:
• Tenha atenção a barulho e estímulos excessivos. Pode ser recomendado ter um quarto resguardado, onde a Pessoa com Demência possa descansar, caso esteja mais cansada ou agitada;
• Convide a Pessoa com Demência a participar nas pequenas tarefas em que esta consiga ajudar. Por exemplo, a Pessoa pode já não conseguir fazer uma determinada receita mas pode ajudar na preparação dos ingredientes ou ajudar a levar os pratos para a mesa;
• Inclua a Pessoa com Demência nas conversas, dentro das suas possibilidades. Tenha em conta as necessidades da Pessoa, optando por falar de forma a que esta consiga acompanhar a conversa. Faça um resumo, caso sinta que a Pessoa está com dificuldade em acompanhar ou se distraiu por uns segundos;
• Opte por usar máscara e incentivar o seu uso para a Pessoa com Demência, caso esteja com familiares que não pertencem ao mesmo agregado familiar;
• Opte por uma sala mais ampla, de preferência arejada, retirando a máscara apenas na altura das refeições;
• Lave ou desinfete as mãos frequentemente, juntamente com a Pessoa com Demência. Por vezes, ver outra pessoa a fazer o mesmo faz com que estejamos mais disponíveis para seguir o exemplo;
• Tente respeitar a rotina da Pessoa com Demência, mesmo durante as celebrações de natal. Se a Pessoa está habituada a deitar-se, a fazer um passeio ou a tomar a sua refeição em determinada hora, tente manter essas atividades o mais próximo possível da sua rotina diária.
2- Receber visitas de familiares, fora do agregado familiar, de curta duração
• Prepare-se para a visita. Pode ser importante explicar à Pessoa com Demência quem a vai visitar, recorrendo a fotografias e histórias marcantes com essas mesmas pessoas. Não espere que a Pessoa consiga reconhecer os visitantes, especialmente de máscara e, se as suas visitas forem pouco comuns. Em vez de questionar de quem se trata aquela pessoa, dê informações que permitam a sua identificação;
• Pode ser importante explicar a doença a familiares que estão mais distantes e que não estejam tão presentes. Algumas pessoas optam por escrever uma carta, um e-mail ou fazer um telefonema, para explicar algumas das alterações que a Pessoa com Demência pode estar a sentir e o impacto que essas têm nas suas relações;
• É mais importante poder partilhar um bom momento do que “passar no teste”. Evite questionários à Pessoa com Demência, que devido à sua condição de saúde, pode não conseguir responder. O mais importante é levar um sorriso e alegria porque mesmo estando tapados pela máscara, a Pessoa com Demência pode continuar a sentir;
• Privilegie encontros em espaços abertos e tente cumprir com as recomendações de segurança (máscara, desinfetante e distanciamento social);
• Caso haja situações em que a Pessoa com Demência se esqueça destas recomendações e precise de ser relembrada, tente não “dar um sermão” mas relembrar simplesmente que a atual situação não permite maiores proximidades, utilizando algumas pistas do ambiente, como as máscaras ou desinfetantes, para a ajudar a relembrar.
3- Não receber visitas/ Encontrar-se numa instituição
• Tente estar presente, mesmo sem a sua presença física. Felizmente, cada vez mais estamos capacitados para utilizar as novas tecnologias para nos manter mais próximos. Opte por realizar uma videochamada para se manter presente;
• Nas situações em que tal não é possível, tente deixar uma carta escrita por si, um postal ou uma mensagem com a sua voz, que permita tranquilizar a Pessoa com Demência e mostrar que não foi esquecida, pelo contrário, está a ser protegida;
• Se possível, leve um prato típico da região de onde a Pessoa com Demência é natural ou alguma lembrança mais tradicional desta altura do ano;
• Caso a Pessoa com Demência esteja numa instituição, tente combinar com antecedência uma hora para a sua videochamada ou telefonema. Caso não seja possível, garanta que lhe chega um vídeo, carta ou postal, juntamente com algum objeto que seja simbólico para ela, como uma fotografia da família ou algum outro objeto importante. Mesmo à distância, é possível transmitir segurança e conforto.
Independentemente de cada situação em particular, podemos agora focar nas atividades que podemos fazer para dar mais brilho a esta altura do ano, tão importante para as famílias.
Aqui podemos usar três mensagens chave: Criar, Manter e Recordar.
Numa altura tão marcada pelo consumismo de bens materiais, pode ser interessante criar pequenas lembranças com a Pessoa com Demência, de forma a dar mais significado a cada prenda. Existem ideias tão variadas como a criação de um postal personalizado, através de desenhos realizados pelos artistas lá de casa, ou mesmo que encontre uma prenda perfeita numa loja, a Pessoa com Demência pode sempre dar uma ajuda a embrulhar, mesmo que não fique perfeito, o importante é ser feito com amor. É ainda possível criar novas decorações de Natal, desde decorações para a árvore de Natal ou para os corredores da sua casa, ajudando também a que a própria Pessoa se consiga orientar mais eficazmente a nível temporal.
Relativamente ao manter, pode ser muito importante manter as tradições da família. Várias famílias mantêm tradições ao longo de várias gerações e estas contribuem para o sentimento de identidade de cada um dos seus constituintes. Assim, caso seja possível, pode ser muito reconfortante para a Pessoa com Demência encontrar, através de uma pequena tradição, memórias reconfortantes de infância, mais fáceis por vezes de recordar. Contudo, pode ser necessário fazer adaptações para que seja possível manter certas tradições. Se a Pessoa com Demência sempre foi à missa, pode ser importante garantir que possa rezar, mesmo no conforto do seu lar, com recurso à transmissão televisa. Outro exemplo, pode ser o facto de fazer uma viagem à terra de onde a Pessoa é natural já não ser recomendado ou ajustado para os dias de hoje. Mesmo assim, pode ser possível encontrar um doce regional dessa mesma região ou um livro com fotos da sua paisagem que ajudem a Pessoa a sentir-se mais em casa, mesmo estando longe.
Por fim, sabemos que o recordar pode ser um tema sensível, mas podemos também potenciar a reminiscência através de um pequeno “livro” sobre a Pessoa. A Alzheimer Portugal desenvolveu uma proposta de Livro da Vida que pode ser construído com o apoio dos familiares que podem estar em distantes regiões do país ou do mundo. Para isso, pode ser interessante pedir a estes familiares e amigos que partilhem fotos que tenham guardadas da Pessoa com Demência e através dessas mesmas fotos, recordar os momentos partilhados. É importante, ao construir e usar o livro, não confrontar a Pessoa com as suas dificuldades, através de perguntas como “então não sabes quem é esta pessoa?”, mas sim potenciar o surgimento de qualquer memória e emoção que a Pessoa tenha, fornecendo os detalhes de que precisa, como, por exemplo, “esta menina aqui de vestido amarelo, é a tua neta Luísa! Costumava rir-se imenso quando andava atrás dos primos na brincadeira”.
Por fim, o mais importante. Se a Pessoa que cuida da Pessoa com Demência não estiver bem, a própria Pessoa também terá muita dificuldade em estar. Pode ser exigente ser responsável por várias tarefas, por cuidar de outrem e ainda assim tentar arranjar um tempinho para cuidar de si. Por isso mesmo, pode sempre adaptar a sua noite às suas necessidades e possibilidades. Em vez de passar horas à volta dos tachos, em constante preocupação com o que a Pessoa com Demência pode estar a fazer, pode, por exemplo, encomendar comida para que possa dedicar mais tempo à sua família. Pode também dividir tarefas e encontrar mais tempo para si com o apoio dos seus familiares.
O importante nesta altura de partilha e de amor é ter em conta que só são precisos pequenos detalhes para que a magia do Natal continue presente, mesmo com as alterações resultantes da doença. Mesmo que certas coisas mudem, o conforto de estar com quem mais gostamos, a sua estima e as emoções que estes desencadeiem em nós serão sempre sentidos, quer tenhamos uma demência ou não.